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Por que as redes sociais não querem o fim das publicações de ódio?

Crédito: Freepick

Se você é um usuário das redes sociais, já deve ter se sentido em algum momento sufocado pela toxicidade desses ambientes.

Uma sensação de que o ódio e todos os sentimentos ruins são amplificados, o mundo até parece muito pior do que é, não é mesmo?

É claro que muitos se perguntam por que esse tipo de conteúdo existe, viraliza, e, principalmente,  por que as redes sociais fazem pouquíssimo esforço para coibir e punir usuários que insistem em condutas reprováveis. 


Não é incomum que perfis com essas características ganhem atenção, seguidores e relevância. E por que isso acontece? O que está por trás do sucesso do conteúdo odioso na internet?


Antes que alguém menos atento pense que este post trata de teorias da conspiração, adianto que faço apenas uma análise da realidade considerando principalmente a dinâmica das redes sociais independente de qual seja ela e como elas se tornam rentáveis. Sem compreender isso, fica difícil tomar consciência de todo o jogo de poder que influencia diretamente como nos posicionamos e como somos impactados nas redes sociais.


O CONTEÚDO É O BEM MAIS VALIOSO DE UMA REDE SOCIAL


Muitos acreditam que o bem mais valioso das redes sociais são seus usuários. A verdade é que usuários são importantes, afinal, eles são os consumidores finais do serviço de rede social, mas o bem mais valioso de uma rede social é o conteúdo que esses usuários geram.


Pense na rede social como um grande museu. Um edifício suntuoso, com bastante espaço para exposições de arte. O conteúdo são as obras de arte que são expostas. São as obras que levam visitantes ao museu. São elas que movimentam o fluxo de visitantes, e por isso mesmo há sempre novas exposições, novas obras mantendo assim o interesse do público em frequentar o museu.


As redes sociais funcionam da mesma maneira. Não importa quantos recursos elas tenham, o que as movimenta é o conteúdo. A diferença é que diferente das obras de arte que passam por uma curadoria para serem expostas ao público, nas redes sociais os conteúdos são validados por algoritmos que possuem critérios um tanto quanto obscuros para determinar se ele deve ou não ganhar destaque na "exposição".


Apesar de muito inteligentes, os algoritmos usam números nessa curadoria, considerando como pequenas porções do público reagem àquele conteúdo. É como se após um post ser publicado, o algoritmo promovesse uma "mostra" para um público seleto. As reações desse pequeno público vai dizer ao algoritmo se aquele conteúdo é ruim ou se tem potencial. Obviamente, esse seleto grupo não sabe que está sendo usado como "cobaia" nesse experimento silencioso. Cada um de nós nas redes sociais fazemos parte de algum seleto grupo que valida ou não conteúdos que serão ou não espalhados para mais e mais porções de públicos até que se torne o que comumente chamamos de "viral".


Se você não está familiarizado com as nuances das redes sociais, deve estar se perguntando como se dá esse experimento. É muito simples, na verdade. Imagine que alguém que você segue no Instagram publicou uma foto de um gatinho. Você achou fofo, curtiu e comentou. Outras pessoas do grupo experimental fizeram o mesmo. Pronto, agora o algoritmo entende que pode entregar a foto de gatinho para outras pessoas, provavelmente elas também vão gostar. Inofensivo não é mesmo? De certa forma, sim, mas nem tanto.


O PROBLEMA DOS NÚMEROS VALIDAREM A QUALIDADE DAS PUBLICAÇÕES


Esse modelo de entrega de conteúdo parece ser perfeito. É como se você nem precisasse se esforçar para receber o conteúdo que lhe agrada. Ele chega "magicamente" no seu celular. Para cada usuário o algoritmo entrega um feed personalizado de acordo com a "curadoria" prévia considerando o que você já validou antes.


A questão é que conteúdo negativo, críticas, ódio, fakenews engajam muito mais que os conteúdos inofensivos. Faça um teste. Poste uma coisa meio absurda como se acreditasse ser verdade e logo surgirão pessoas que nunca trocaram duas palavras contigo para corrigir, retrucar ou criticar. E você, enquanto humano, entende essas reações como o que são de fato: reações negativas.


Já o algoritmo vê de outra forma: ele enxerga como ENGAJAMENTO. E quanto mais contraditório o conteúdo parece ser, mais pessoas se envolvem com ele, motivando o algoritmo a entregá-lo para cada vez mais pessoas. Já aquela sua frase de otimismo, coitada: fica lá, flopada. Não engaja, não desperta interesse, logo, não há motivos para que mais pessoas a vejam. Vai pra latinha de lixo do algoritmo.



O CICLO VICIOSO INSTALADO


Não é preciso pensar muito para entender qual tipo de postagem vai trazer mais valor para o produtor de conteúdo que está desesperado em busca de seguidores, de likes, retuites, de alguns minutos de fama ou quem sabe, até de uma fonte de renda. Conteúdos controversos pautam as discussões, disparam nos trend topics e mobilizam multidões que se posicionam contra ou a favor transformando algo pequeno numa grande avalanche digital.


Esse é o melhor dos mundos para uma rede social. A princípio, ela é apenas um instrumento inofensivo. Porém o seu grande objetivo é manter as pessoas por mais tempo possível envolvidas em suas teias, engajadas, mobilizadas, defendendo pontos de vista ferrenhamente até que outra pauta seja levantada, a anterior esquecida. O ciclo se mantém.


Entenda: as redes sociais lucram com a nossa atenção. Hoje em dia a maioria dos celulares revelam quanto tempo do nosso dia dedicamos aos aplicativos e com certeza os das redes sociais são campeões. Quanto mais atenção nós entregamos, mais elas lucram com anúncios. Cada anúncio exibido para nós na rede social é contabilizado e quanto mais tempo passamos na rede, mais chances de vermos mais anúncios, e até de clicarmos neles.


Então, se as redes sociais tem conhecimento de que o tipo de conteúdo que mais vai nos manter em seus domínios são justamente o que acreditamos ser nocivos, por que elas acabariam com essa mina de ouro infinita? Não faz sentido.


E você pode pensar: "poxa, mas as vezes denunciamos conteúdos e eles são derrubados, não é bem assim". Bom, considere que nem todas as denúncias são aceitas como legítimas. A maioria recebe um "analisamos e entendemos que o conteúdo não viola nossas regras". Muitas vezes é preciso uma ação coordenada, massiva, para enfim a plataforma entender que talvez tenha que ceder e derrubar o conteúdo, não sem antes apelar para o risco de cercear a liberdade de expressão. É muita energia despendida nesse movimento, ao passo que mais e mais postagens controversas são publicadas initerruptamente. Não tem fim e nós não podemos ter a ingenuidade que as próprias plataformas farão algo para que tenha. Não farão.


Tudo o que podemos fazer é tomarmos consciência desses padrões, perceber quando nossa indignação estará a serviço do engajamento do ódio e aceitar que bem: vai passar. Eu posso sobreviver sem dar minha opinião, sem retuitar, sem assumir um posicionamento. Claro, não é fácil. Mexe diretamente com nossas emoções, com nosso senso de justiça. Parece errado ignorar, mas acredite: a sua revolta é música para os ouvidos dos algoritmos e quem dissemina ódio sabe muito bem disso.



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